Cava de Viriato

Cava de Viriato é um dos sítios arqueológicos mais emblemáticos do nosso país, mas também um dos mais enigmáticos. Conhecido e estudado desde o século XVII por vários autores de renome, este sítio arqueológico continua a esconder a sua fundação e função originais.

Planta de João de Pavia integrada na sua obra Descrição da Cidade de Viseu, suas antiguidades e cousas notáveis que contém em si e seu Bispado, datada provavelmente de 1638

Trata-se de um recinto octogonal com uma área de cerca de 30 hectares interiores. Cada lado do octógono tem uma média de 270 metros no limite exterior, fazendo com que o perímetro tenha aproximadamente 2160 metros de comprimento. Esta estrutura foi construída exclusivamente com recursos locais, tendo sido o seu interior aplanado e construído um fosso periférico que foi escavado até aos níveis das águas subterrâneas. As terras removidas do fosso foram utilizadas para construir a muralha de terra, que originalmente atingiria uma altura de aproximadamente 7 metros. Esta foi compactada e seria, provavelmente, rematada com uma paliçada.

“um dos sítios arqueológicos mais emblemáticos do nosso país”

A Cava é um dos monumentos que mais cedo despertou a atenção de curiosos e estudiosos. A primeira referência a esta construção data do início do século XVII. A sua ligação ao lendário líder Lusitano, Viriato, data de 1630. A interpretação da Cava como acampamento militar, quer Lusitano quer Romano, percorre vários autores desde então. Mais recentemente, Vasco Mantas, apesar de considerar a existência de um pequeno acampamento romano dentro do octógono, admite que o monumento pode corresponder a um campo atribuível à administração Islâmica. Esta visão foi reforçada com novos argumentos por Helena Catarino, em 2005, que atribuiu a construção à época das campanhas de Almansor, nos finais do século X. Em 2006, Jorge de Alarcão também apontou para uma possível fundação do início da Idade Média, mas correlaciona-a com as elites de origem asturiana, mais especificamente com o rei leonês Ramiro.

“a tese de um grande campo militar tem vindo a perder os apoiantes”

Tendo em conta a significativa escassez de restos arqueológicos, a tese de um grande campo militar tem vindo a perder apoiantes. A sua dimensão também inviabiliza esta possibilidade.

Ainda que possa ter havido influência islâmica na construção da Cava, com a eventualidade de poder ter sido um arquiteto islâmico desconhecido a projetá-la, as circunstâncias políticas apontam para que a mesma tenha sido erguida num contexto de poder cristão. Viseu já havia ganho algum protagonismo no tempo de Ordonho II, enquanto ainda rei da Galiza, e esse protagonismo haveria de vir a ser confirmado pelo seu filho Ramiro, entre 926-931, quando assume, como herdeiro, a metade sul desse reino. A Cava deverá ter sido planeada e mandada construir neste contexto específico. Não para ser um acampamento, mas para se assumir como uma nova cidade áulica que marcava o início de um novo reino e uma nova dinastia.

“um projeto de cidade ambicioso que não foi terminado”

As vicissitudes políticas do reino astur-leonês, contudo, catapultaram Ramiro para o trono de Leão a partir de 931. Viseu como cidade áulica deixava então de fazer sentido, o que sustenta a ideia de a Cava ter sido um projeto de cidade ambicioso que não foi terminado. Dados recentes obtidos na investigação levada a cabo no âmbito do programa VISEU PATRIMÓNIO mostram que dois lados do octógono não foram concluídos, o que sustenta a ideia de que a construção foi abandonada mesmo antes de estar terminada.

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